Ora Dr. como posso falar em meu potencial altruísta se eu mesma me considero a pessoa mais egoísta do mundo??
Vamos, me esclareça.
Mas, como posso me considerar egoísta se abro os meus armários e dou tudo o que tenho.
Bem.. Verdade é que só dou o que não mais quero.
Isso é agoísmo.
Tá bem, já faz tempo que venho dizendo que sou agoísta, assumida.
Você acha que egoísmo é defeito?
Você quer que seja um defeito. Você quer ter defeitos. Ser má. Perversa. Oportunista.
Chantagista. Golpista. Estrategista. Pervertida.
É! né! Mas só me atrapalho.
É difícil ser eu.
Não é qualquer um que consegue me ser.
Me ser??? Pode isso??
Você se preocupa muito com as palavras.
Pois é! né!
Sou ligada a elas o tempo todo.
Por que será?? Ou elas são ligadas a mim??
O que seria de mim se eu fosse muda? Como poderia fazer os meus barracos?
Dar ênfase as frases, aos palavrões, entonação, agressão, sonoridade, expressão as minhas falas?
Prefiro a cegueira. Tanto quanto ficar sem pernas do que sem carro.
Ninguém diria isso, não é?
Claro. As pessoas tem medo das palavras.
Eu não tenho. Definitivamente.
Ao contrário, uso e abuso delas.
Eu as enfrento, desafio, chamo...
É possível alguém desafiar as palavras?
Só mesmo tu, metida, quer confrontar tudo, todos, o sistema, o planeta se pudesse.
Destemida. Fingida.
Credo!! Não posso me considerar destemida só por que não tenho medo das palavras.
Puxa! Nem acredito que disse tamanha bobagem.
Acredito sim. Adoro dizer bobagens. A vida é uma bobagem.
Mas voltando. Eu é que sei a força que as palavras tem.
É por causa delas que estou aqui...
Que vou parar na delegacia...
Que tenho que responder a processos..
Tudo bem, já estou acostumada.
E quer saber. Adoro isso.
Adoro me enrolar nas palavras, com as palavras e por causa das palavras.
Aliás é justamente à custa delas que depois eu me livro das confusões.
Mas é por causa delas também que eu me agrido, me critico e escrevo este textículo.
Pois é...Mas eu estava onde mesmo?
No egoísmo e altruísmo.
Bah! tava mesmo prestando atenção, não consegui te pegar.
Por que será que vivo testando as pessoas?
Não sei. Pensa.
Ora pensa. Será que tu não pode trabalhar um pouquinho?
Fica aí sentado como um Buda esperando que eu resolva todos os meus problemas.
E ainda tenho que pagar por isso.
Pensa. Por que tu acha que testa as pessoas.?
Porque, ora.. por que...sei lá... será que dá prá me responder, qué rido.
Não tô a fim de pensar. Quero ouvir. Preciso ouvir. Não falar.
Pensa.
Quem sabe se para confirmar minhas expectativas com relação aos outros.
Expectativas é? Isso me remete a algo.
É... sei lá...será que ainda espero algo de alguém?
Ele faz aquele movimento de cabeça, olhos, dedos na boca, todos projetados para cima e que confirmam o que digo.
Imagina eu, logo eu, independente, poderosa, cheirosa, gostosa e sem um tostão, ainda esperar alguma coisa de alguém.
Ele vai empurrando a cadeirinha.
Que raiva me dá.
Quando as coisas parecem começar a fazer sentido.
Termina minha hora. Me iludo que é minha hora. Mas é hora dele.
Já tá empurrando a cadeirinha?
Ela dá uma risadinha e projeta a cabeça para trás, levanta as sobrancelhas...
Lamento é a tua dinâmica.
Vou embora com a cabeça cheia de dúvidas.
A bolsa cheia de receitas e remédios.
E a carteira vazia.
Sem definições, sem respostas como sempre.
Isso já faz três anos.
Fica tudo flutuando e durante a semana se acomodando.
Esse será meu trabalho intelectual da semana.
Minha lição de casa. Pensar.
A cabeça vazia que é a oficina do Diabo, deve ficar ocupada.
Tudo bem eu até ocupo.
Mas sempre deixo um espacinho para os meus Diabinhos.



